Ataque dos EUA deixa Caracas com ruas vazias e filas no comércio
Enquanto avenidas permanecem vazias, supermercados e farmácias se tornaram pontos de concentração. O receio de novos bombardeios e de desabastecimento levou muitos moradores a correrem para estocar itens básicos. “Os poucos mercados que estão abertos estão cheios”, diz a venezuelana. “Eu mesma comprei os remédios que minha mãe precisa e comida para meu cachorro para não ter que sair de casa”, completa. Nas farmácias, segundo ela, “as filas são longas e constantes”.
CASAS DESTRUÍDAS PELO ATAQUE DOS EUA

O medo ganhou contornos ainda mais concretos para quem vive próximo às áreas atingidas pelas explosões. A casa da mãe da entrevistada, uma idosa de 78 anos, foi completamente destruída. “Foi um susto enorme para eles”, afirma. Vídeos gravados pela família mostram o imóvel reduzido a escombros, com móveis quebrados, estilhaços de vidro espalhados e marcas visíveis nas paredes. “Não se pode viver na casa da minha mãe. Entrou poeira, terra, cimento, os vidros quebraram. Só restaram escombros”, descreve.
Segundo o relato, a idosa dormia no momento do ataque. “Ela pensou que fosse um terremoto. Só repetia isso. Depois soubemos que eram bombas, não um terremoto”, conta a filha. Árvores próximas ficaram queimadas, e o impacto foi tão forte que causou danos estruturais em toda a casa. Ainda assim, ela destaca que a mãe escapou por pouco de ferimentos graves. “As cortinas caíram sobre a cama antes que os vidros se estilhaçassem. A televisão se quebrou, e os vidros caíram todos por cima dela”.
Além dos danos materiais, bairros inteiros enfrentam problemas de infraestrutura. “Muitas casas estão sem luz. A melhor amiga da minha mãe está sem energia até agora”, relata. A comunicação também se tornou um desafio. “Em algumas regiões não há sinal de celular. Só conseguimos ligar usando aplicativos”, afirma.
CLIMA DE TENSÃO E MEDO
Apesar da prisão de Maduro, o sentimento nas ruas está longe de ser de comemoração aberta. O medo de represálias fala mais alto. “Pela primeira vez, vivemos algo que não é uma história. É real”, diz a venezuelana. Ela admite que há uma mistura de emoções. “As pessoas estão nervosas e ansiosas, mas ao mesmo tempo felizes”, afirma. “Eu também estou feliz com a possibilidade de mudança, mas tenho medo. Medo de chegarem aqui em casa e me levarem”.
Segundo ela, o silêncio é uma forma de proteção. “Gostaria de estar celebrando, mas não podemos. O grupo de Maduro é muito grande”, explica. Mesmo críticos do antigo governo evitam manifestações públicas, cientes de que estruturas de poder ainda permanecem ativas no país.
A presença da Polícia Nacional reforça esse clima de tensão. “Temos uma sensação de pânico com essa polícia”, diz. Ela relata que agentes encapuzados se tornaram mais comuns nos últimos meses e que abordagens são frequentes. “Meu filho já foi parado dez vezes em um trajeto de uma hora e meia”, conta. “Vivo assustada porque não sei quando isso vai acabar”.
ECONOMIA MELHOROU NOS ÚLTIMOS ANOS
Do ponto de vista econômico, a entrevistada reconhece que a situação melhorou em relação aos anos mais duros da crise. “Entre 2016 e 2020 foi muito pior”, afirma. “Nos últimos anos houve uma expansão do comércio local que ajudou a manter empregos, algumas portas se abriram”. Ainda assim, setores estratégicos seguem em decadência. “O setor petroleiro está em declínio. Muitos engenheiros abandonaram a área porque os salários são míseros”.
